31.3.16

29.3.16

O mundo ao avesso (11 - expansor)

O expansor é um dos assuntos que quero partilhar aqui convosco.

Se bem se lembram a minha opção no que diz respeito à reconstrução, passou pela colocação de um expansor no momento da mastectomia.

A colocação de expansor consiste em colocar uma "espécie" de saco no local onde outrora estava o tecido mamário, posteriormente este vai sendo enchido (através de uma válvula) com soro fisiológico a cada 15 dias. O objetivo é a pele ir esticando, tal como o músculo, para mais tarde ser possível colocar uma prótese.

No dia em que fui fazer o primeiro enchimento não fazia ideia como eles iriam fazer aquilo e estava curiosa é claro. 
O processo é bastante simples e indolor, identificam o local da válvula com um detetor de metais e depois é só injetar soro fisiológico para dentro do "saco", na verdade não custa nada.

No primeiro enchimento colocaram 100 ml de soro fisiológico, a até aqui tudo bem, o problema foi ao fim do dia quando o músculo começou a ficar farto de estar esticado... ora se as dores pós mastectomia foram más, não consigo dizer se estas não eram ainda piores.

Estive uma semana em que andar era um sofrimento atroz, bastava colocar um pé no chão e parecia que me estavam a rasgar ao meio, deitar-me ou levantar-me só se tornava menos doloroso com ajuda (alguém colocando uma mão nas minhas costas e puxando-me para cima, ou apoiando-me de forma a que me conseguisse deitar).
Posso dizer que foi das coisas pelas quais passei mais dolorosas fisicamente.

Não podia ser assim até ao fim dos enchimentos, eu não ia suportar, e no segundo enchimento colocaram apenas 50 ml, o que eliminou uma parte das dores. Eu preferia encher mais vezes mas sofre menos em cada vez.

No total foram feitos 6 enchimentos e eu sentia-me uma galinha depois de ter comido uma saca de milho.

O expansor é desconfortável e, no meu caso, causou-me sempre um enorme desconforto, foi-me muito difícil suportar aquela coisa dentro de mim tantos meses, mas tive que conviver com ele até ao dia 23 novembro de 2015, ou seja, 6 meses.

A informação que me deram no hospital é de que há mulheres que convivem muito bem com isto, mas talvez devido à minha constituição física o meu caso foi bastante complicado.

Mas nem tudo era mau.





Azulejos - Porto
Photos by ♥ Dora Ramalho

Pit Stop (Lego Fun)

28.3.16

when you want something, all the universe conspires in helping you to archive it (Lego Fun)

O mundo ao avesso (10 - cicatrizes)

Quando fui tirar os pensos pós mastectomia não tive aquele choque que imaginava ter, afinal não estava completamente lisa e com uma enorme cicatriz. A cicatriz existia sim, mas como optei pela colocação de expansor, o mesmo criava um ligeiro volume, uma vez que quando o colocam, colocam também algum soro.

A parte visual não me causou qualquer confusão.
Confesso que não é a coisa mais agradável do mundo, ver o nosso corpo, aquele no qual nunca pensamos mexer até mesmo por questões estéticas, modificado de forma irreversível.

E fazendo aqui um pequeno à parte aproveito para falar um pouco de uma das coisas em que pensei (em determinadas alturas até com uma certa revolta) durante este último ano.
Não sou de todo contra a cirurgia estética, e quando falo em cirurgia estética refiro-me àquela puramente estética, quando as senhoras se olham ao espelho e gostavam de ver uma cinturinha igual à que tinham com menos 20 anos, ou umas maminhas que mais voltem a parecer-se com uns marmelos, ou até mesmo para apagar umas 20 rugas que teimaram em aparecer devido aos anos vividos.
Não sou contra, e continuo a dizer, se é para as pessoas se sentirem melhor, ótimo, força.
No entanto eu nunca na vida iria submeter-me fosse ao que fosse para mudar algo no meu corpo apenas por uma questão tão e somente estética. Simples não?

E isto confesso que me causou uma certa revolta.
Porquê eu? Porquê a mim? Eu não quero mexer no meu corpo, eu não me quero "escortanhar" para me aproximar de certos níveis pré-estipulados de beleza. Não seria mais justo estas coisas acontecerem a quem se quer reorganizar fisicamente?

É claro que não, tudo isto é um perfeito disparate, até porque nada disto é justo, para ninguém, para nenhuma mulher (neste caso concreto), mas a verdade é que foi um dos pensamentos que durante algum tempo viveram comigo.

Bem, talvez por nunca ter sido uma pessoa demasiado preocupada com a minha aparência exterior o impacto visual de quando me olhei ao espelho pela primeira vez sem pensos não foi tremendamente assustador. É triste? Sim. É confuso? Também. É estranho? Sem dúvida.

Pior do que todas as cicatrizes visíveis são as cicatrizes que nunca ninguém irá ver, não porque as queiramos ou consigamos esconder, apenas porque são invisíveis aos olhos.


Puxador algures por Praga
Photos by ♥ Dora Ramalho

25.3.16

Enjoying the fresh air (Lego Fun)

Easter blessings (Lego Fun)

O mundo ao avesso (9 - amigos)

Os amigos são a família que podemos escolher, e das coisas mais importantes quando passamos por uma doença que nos mostra o quanto somos efémeros, são as pessoas que nos rodeiam, família, amigos, conhecidos.

Sempre ouvi uma frase, Queres saber quantos amigos tens? Dá uma festa. Queres saber a qualidade deles? Fica doente.

Pois estas frases feitas não surgem sem motivo, e esta é uma enorme verdade.

Uma coisa que descobri com a minha doença, foi a qualidade dos amigos que me rodeavam e daqueles que estavam mais afastados, digo que descobri porque estava realmente enganada principalmente em relação aos que me rodeavam.

Tive enormes surpresas, umas más, mas muitas boas.
Curiosamente aqueles que aparentemente estavam mais próximos afastaram-se, não tiveram tempo, afinal não se tratava de nenhuma festa e portanto a disponibilidade ficou muito limitada, na altura fiquei triste, magoada e desiludida, mas agora sinto-me feliz que assim tenha sido. Afinal de contas não vivo enganada, e sei que se der uma festa eles voltam a aparecer.

Outro dos pontos positivos foi que os amigos que estavam aparentemente longe, afinal não estavam assim tão longe, e demonstraram realmente que mesmo afastados continuam a ser amigos, pessoas preocupadas e que conseguem arranjar tempo para dar um pouco de apoio nos piores momentos da vida.

A esse eu não me canso de agradecer, pois foi muito importante o carinho, o ombro amigo, as palavras.

No fim de tudo sinto-me uma pessoa especial e felizarda, estive rodeada de pessoas maravilhosas, descobri com quem posso efetivamente contar e percebi quem se preocupa realmente comigo, amigos que estavam longe e ficaram perto, colegas de trabalho que foram incansáveis e me mimaram muito, e a minha família que esteve ao meu lado de forma incondicional.

A todos, e vocês sabem quem são, volto a agradecer, por me acompanharem nesta caminhada.

Feliz de quem tem amigos, feliz de quem sabe quem eles são.



Porta e Puxador algures por Praga
Photos by ♥ Dora Ramalho

A smile is the best makeup (Lego Fun)

24.3.16

O mundo ao avesso (8 - mastectomia)

Ainda não expliquei aqui que para o meu caso tinha 3 opções para a fase pós mastectomia.
1- não fazer reconstrução (que para mim não era opção);
2- puxar músculo das costas para reconstruir a mama;
3- colocar expansor logo pós mastectomia.

Bem na verdade tinha 2 opções e tentei perceber o que cada um dos casos implicava, mas a escolha teve que ser rápida, quase na hora, e optei pela colocação de expansor quase em simultâneo com mastectomia.

A colocação de expansor, consiste em colocar uma "espécie" de saco que vai sendo enchido (através de uma válvula) com soro fisiológico a cada 15 dias. O objetivo é a pele ir esticando, tal como o músculo, para mais tarde ser possível colocar uma prótese.

A escolha estava feita, e o dia tinha chegado.
Quando acordei foi um misto de emoções, se por um lado estava desejando que acontecesse, por outro estava com medo.

Lá fui, antes da mastectomia tinha de fazer um exame que consistia em injectar um líquido radioactivo a fim de identificarem o gânglio sentinela, o gânglio sentinela é aquele por onde o bicho mau passa caso já se esteja a espalhar pelo resto do corpo, por isso é importante analisa-lo para saber até que ponto estamos "contaminados".

Depois foi uma longa espera até à cirurgia propriamente dita.
Entrei no bloco operatório a chorar, descontrolada, lutei contra a anestesia, e pela primeira vez senti que me estava a "apagar" e eu não queria, não queria porque sabia que quando acordasse nada voltaria a ser como antes, e tinha medo desse futuro próximo.
Obviamente a anestesia venceu, e quando acordei estava novamente a chorar, confusa, e triste.

Os dias seguintes foram muito complicados, tive imensas dores, eu só queria que me dessem "drogas" para não ter dores, o resto deixou de ser um problema.

Depois foram mais 15 dias à espera de resultados, novamente os resultados que iriam ditar o meu futuro, e as dúvidas (nas quais tentei nem pensar)
O sentinela está afetado?
O bicho mau está espalhado pelo meu corpo?
E se estiver, que tratamentos ainda são possíveis fazer?
Como vai ser a minha vida?

Muitas perguntas... Nenhuma reposta, a única certeza era que tinha de esperar por um relatório que ditava o meu futuro.
Achamos que controlamos a nossa vida, que temos tudo previsto e programado, desenganem-se!
Nós não controlamos nada, e só percebemos isso quando dependemos do que virá escrito num papel.

A única coisa que podemos fazer é sorrir, aceitar, reagir...

...e esperar.



Porta e Puxador algures por Praga
Photos by ♥ Dora Ramalho

This queso rocks (Lego Fun)

21.3.16

Love that music (Lego Fun)


Inside the flower (my macro Photos)

Uma das minhas paixões na fotografia são as macros. 

Sou tipo coca bichinhos...
Estas são do fim de semana.
Adoro!





Respect (Lego Fun)


O mundo ao avesso (7 - aceitar)

Viver um dia de cada vez, também significou saber aceitar.
Eu considero que é importante sabermos aceitar, por muito que custe, mas acreditem que quando aceitamos também tornamos o peso menor, passamos a viver menos angustiados.

Como já disse num post anterior, eu tenho uma filha, na altura tinha 9 anos e tive que decidir como ia lidar com ela, o que lhe ia dizer, até onde devia e o quê devia explicar.
Sempre formos muito próximas, e não queria que isso mudasse, por isso só tinha uma hipótese, ela tinha de saber, ela tinha de saber que após a primeira cirurgia não me ia puder abraçar com força.

Por isso decidi ir falando com ela aos poucos, fui-lhe explicando que tinha de fazer um exame e que depois disso não ia puder fazer esforços, e ela não me ia puder apertar, fomos falando e fui deixando sempre um espaço para que ela pudesse pensar e colocar as questões dela à vontade.
Afinal eu não queria explicar mais do que o necessário, não queria confundi-la, queria apenas não transformar o assunto, num assunto tabu.

Ela aceitou tudo muito bem, foi colocando as dúvidas dela e eu fui explicando.
Após cada cirurgia ela queria ver, e eu mostrava, afinal ela ia acabar por ver mais cedo ou mais tarde, e eu não queria andar a esconder algo que nunca escondi entre nós, o nosso corpo.

Aceitar significa também transformar o assunto, num assunto de família, num assunto que se fala sem medo.

Se eu estava pronta para a mastectomia?
Não! Ninguém está.
Porque ninguém consegue saber o que é antes de acontecer.

Mas eu só queria que chegasse rápido.


Puxador algures por Praga
Photos by ♥ Dora Ramalho

17.3.16

all you need is hot Cocoa & warm socks (Lego Fun)

O mundo ao avesso (6 - reagir)

Reagir.
Eu tinha de reagir, e felizmente tive ao meu lado pessoas que me ajudaram a tal.
Família, amigos que estavam longe e de repente ficaram perto, amigos que estavam perto e de repente ficaram longe (desses falarei noutro post), colegas de trabalho, considero que fui uma felizarda mesmo.

Decidi sorrir, afinal a sorrir é tudo mais fácil!

Acho que inconscientemente fui buscar o exemplo da minha avó materna.
Uma mulher extremamente forte, determinada e teimosa.
Também ela teve cancro da mama.
Foi uma lutadora, nunca baixou os braços, fez tudo o que era preciso e conseguiu, conseguiu acabar com o bicho, ficou com imensas mazelas, mas não foi ele quem levou a melhor, o maldito cancro não a venceu, e também não me ia vencer a mim, estava determinada.

Nunca pensei que ia correr mal, pelo menos nunca quis acreditar nisso.
Tenho uma filha e vou vê-la crescer, vou estar presente ainda muito tempo.
Talvez isso tenha sido dos pensamentos que mais força me deram, e não é fácil encontrar força.

Tentei não pensar em como ia ser, como ia reagir quando saísse da mastectomia, quando me olhasse ao espelho. Tentei não pensar e se o bicho já está espalhado pelo meu corpo? Aprendi a não criar falsas expectativas, nem para o bom nem para o mau, apenas vivi até chegar o dia.

Vivi o melhor que consegui, e sorri o mais que me foi possível, por isso tentei saber o menos possível sobre o assunto. Não fiz pesquisas pela internet fora, não quis falar com quem já tinha passado por situações semelhantes, afinal cada caso é um caso, cada pessoa reage de uma determinada forma, e eu não queria sofrer com os problemas dos outros. E isso agora parece uma enorme contradição, uma vez que eu própria estou a partilhar aqui o que se passou comigo, mas tal como eu não quis mais informação, pode haver quem queria e se eu puder ajudar uma mulher que seja, já fico feliz.

Vivi um dia de cada vez e esperei pelo dia.



Puxador algures por Praga
Photos by ♥ Dora Ramalho

Lorelei lorelei Hihu (Lego Fun)