24.3.16

O mundo ao avesso (8 - mastectomia)

Ainda não expliquei aqui que para o meu caso tinha 3 opções para a fase pós mastectomia.
1- não fazer reconstrução (que para mim não era opção);
2- puxar músculo das costas para reconstruir a mama;
3- colocar expansor logo pós mastectomia.

Bem na verdade tinha 2 opções e tentei perceber o que cada um dos casos implicava, mas a escolha teve que ser rápida, quase na hora, e optei pela colocação de expansor quase em simultâneo com mastectomia.

A colocação de expansor, consiste em colocar uma "espécie" de saco que vai sendo enchido (através de uma válvula) com soro fisiológico a cada 15 dias. O objetivo é a pele ir esticando, tal como o músculo, para mais tarde ser possível colocar uma prótese.

A escolha estava feita, e o dia tinha chegado.
Quando acordei foi um misto de emoções, se por um lado estava desejando que acontecesse, por outro estava com medo.

Lá fui, antes da mastectomia tinha de fazer um exame que consistia em injectar um líquido radioactivo a fim de identificarem o gânglio sentinela, o gânglio sentinela é aquele por onde o bicho mau passa caso já se esteja a espalhar pelo resto do corpo, por isso é importante analisa-lo para saber até que ponto estamos "contaminados".

Depois foi uma longa espera até à cirurgia propriamente dita.
Entrei no bloco operatório a chorar, descontrolada, lutei contra a anestesia, e pela primeira vez senti que me estava a "apagar" e eu não queria, não queria porque sabia que quando acordasse nada voltaria a ser como antes, e tinha medo desse futuro próximo.
Obviamente a anestesia venceu, e quando acordei estava novamente a chorar, confusa, e triste.

Os dias seguintes foram muito complicados, tive imensas dores, eu só queria que me dessem "drogas" para não ter dores, o resto deixou de ser um problema.

Depois foram mais 15 dias à espera de resultados, novamente os resultados que iriam ditar o meu futuro, e as dúvidas (nas quais tentei nem pensar)
O sentinela está afetado?
O bicho mau está espalhado pelo meu corpo?
E se estiver, que tratamentos ainda são possíveis fazer?
Como vai ser a minha vida?

Muitas perguntas... Nenhuma reposta, a única certeza era que tinha de esperar por um relatório que ditava o meu futuro.
Achamos que controlamos a nossa vida, que temos tudo previsto e programado, desenganem-se!
Nós não controlamos nada, e só percebemos isso quando dependemos do que virá escrito num papel.

A única coisa que podemos fazer é sorrir, aceitar, reagir...

...e esperar.



Porta e Puxador algures por Praga
Photos by ♥ Dora Ramalho

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